Silêncio no Plenário: O que o baixo índice de discursos revela sobre a representatividade capixaba em Brasília?
VITÓRIA – O exercício do mandato parlamentar vai muito além da votação eletrônica; ele reside, em sua essência, no debate, no confronto de ideias e na defesa pública dos interesses do eleitor. No entanto, um levantamento detalhado realizado pelo portal A Gazeta, com base em dados oficiais da Câmara dos Deputados, acendeu um sinal de alerta sobre a performance da bancada capixaba em Brasília ao longo dos últimos três anos.
A apuração revela um cenário de "mudez parlamentar" que atinge nomes de peso. No topo do ranking do silêncio está o deputado Amaro Neto (Republicanos). Curiosamente, um comunicador profissional que faz da fala sua ferramenta de trabalho na TV, Amaro não registrou nenhum discurso na fase da "Ordem do Dia" — o momento mais nobre das sessões, onde as matérias são efetivamente debatidas e votadas — em três anos de mandato.
Os números da ausência no púlpito
O levantamento, que excluiu os chamados "breves comunicados" (falas rápidas de caráter protocolar), mostra que outros parlamentares também optaram pela discrição extrema no púlpito da Câmara:
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Amaro Neto (Republicanos): 0 discursos.
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Victor Linhalis (Podemos): 10 discursos.
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Da Vitória (PP): 18 discursos.
Para se ter uma dimensão da baixa produtividade oratória, o número de intervenções desses deputados, ao longo de mil dias de mandato, é inferior a uma manifestação por trimestre — no caso de Amaro, a estatística é nula.
O papel do legislador: Voto ou Voz?
A análise dos dados, disponíveis para qualquer cidadão no portal da transparência da Câmara, levanta um questionamento fundamental para o eleitorado que se prepara para 2026: qual o papel esperado de um representante?
Embora o trabalho de um deputado envolva articulações em comissões e a relatoria de projetos, o Parlamento — termo derivado do ato de "parlar", falar — existe para o embate público. Quando um deputado se cala na Ordem do Dia, ele abre mão de contrapor posicionamentos opostos, de denunciar abusos ou de defender, para o registro histórico e público, as bandeiras que o elegeram.
No caso do deputado Da Vitória, atual coordenador da bancada capixaba e articulador influente, os 18 discursos sugerem um foco maior nos bastidores do que na tribuna. Já Victor Linhalis, em seu primeiro mandato, mantém uma média que pouco contribui para a visibilidade das demandas do Espírito Santo nos grandes debates nacionais.
O impacto para 2026
O silêncio de um parlamentar pode ser interpretado de duas formas: ou uma estratégia de "baixo perfil" para evitar desgastes, ou uma alarmante falta de protagonismo nos temas que mexem com a vida do brasileiro.
Para o eleitor, a transparência digital agora permite conferir se o candidato que brilha nas redes sociais e nos comerciais de TV tem a mesma disposição para encarar o contraditório no plenário. Em 2026, a produtividade legislativa — medida não só por projetos, mas pela coragem de ocupar o púlpito e debater — deve ser um dos principais filtros para a renovação das cadeiras.
