Além da Folia: Câmara de Colatina Vota Projeto que "Enquadra" Músicas e Danças nos Trenzinhos da Alegria
Enquanto as cinzas do Carnaval ainda caem sobre o asfalto, o cenário político de Colatina retoma suas atividades com uma pauta que promete dividir opiniões entre o conservadorismo e a liberdade de expressão. Devido ao feriado prolongado, a sessão ordinária — tradicionalmente realizada às segundas-feiras — foi transferida para esta quinta-feira (19). No centro do debate, o Projeto de Lei nº 255/2025, de autoria do vereador Eliesio Braz Bolzani.
O alvo da proposta é específico e popular: os "Trenzinhos da Alegria". O projeto busca proibir a execução de músicas, vídeos e coreografias que façam apologia ao crime, ao uso de drogas ou que apresentem conotação sexual nessas atrações voltadas ao público infantil.
O Fim da "Malícia" sobre Trilhos?
A justificativa do vereador Bolzani é fundamentada na proteção da integridade moral e psicológica de crianças e adolescentes. Segundo o texto, tem sido "recorrente" a execução de letras que exaltam a criminalidade e a sexualização precoce em um ambiente que deveria ser estritamente lúdico.
O projeto estabelece uma escada de punições para quem desrespeitar as normas:
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Advertência por escrito na primeira infração;
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Multa de 10 VRM’s (Valores de Referência do Município) em caso de reincidência;
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Suspensão do alvará de funcionamento após a terceira reincidência.
As Comissões de Legislação e Justiça, além da de Segurança e Transporte, já deram o sinal verde, opinando pela aprovação da matéria.
Entre a Proteção e o Controle: O Tom Crítico
Embora a intenção declarada seja o zelo pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a proposta levanta o questionamento clássico sobre os limites da intervenção estatal no entretenimento. Ao citar como exemplo uma lei semelhante de Baixo Guandu/ES, Colatina sinaliza uma tendência regional de "higienização" cultural dos espaços públicos.
A crítica que surge nos bastidores é sobre a subjetividade da fiscalização. O que define uma "coreografia inadequada" ou uma "letra de cunho sexual" em um país onde o funk e o piseiro dominam as paradas de sucesso e os fones de ouvido dos próprios menores de idade? O projeto coloca sobre os ombros da Polícia Militar e do Conselho Tutelar a tarefa hercúlea de monitorar o setlist dos personagens fantasiados enquanto o trenzinho percorre as ruas da "Princesa do Norte".
Moralidade ou Realidade?
A medida é vista por setores conservadores como um resgate necessário dos valores familiares. Por outro lado, críticos apontam que proibir o "Trenzinho" de tocar certos ritmos não isola a criança de uma realidade musical que está onipresente na internet e nas festas domésticas. O projeto foca no sintoma — a música no alto-falante do veículo — mas ignora o fenômeno cultural que a sustenta.
Se aprovada nesta quinta, a lei entra em vigor imediatamente, mudando drasticamente o tom das buzinas e das danças que, até então, embalavam as noites colatinenses.
